“Cuidado
para que vocês não sejam enganados”
Chegando ao fim do ano litúrgico,
encontramos uma das passagens chamadas “apocalípticas” de Lucas. É um texto
realmente complexo, que olha em duas direções: lendo o que foi escrito pelo ano
85, o leitor pode olhar para trás para 19, 47 - 21,4, e ve, fazendo uma leitura
teológica, a consequência da rejeição de Jesus e do seu ensinamento pelos
líderes do Templo (a destruição do Templo pelos Romanos sob Tito no ano 70 d.C);
também o leitor pode olhar além dos eventos de Lucas 22-23 e ver a vindicação
do Filho do Homem por Deus, e o fortalecimento por Jesus dos seus discípulos,
que serão perseguidos por sua fidelidade a Ele. A passagem (que na realidade
continua até v. 38) pode ser dividida da seguinte maneira:
1) Introdução (vv. 5-7)
2) Exortação inicial (vv. 8-9)
3) Desastres cósmicos (vv. 10-11)
4) Eventos que precederão o fim do mundo -
cristãos serão perseguidos; (vv. 12-19); a destruição de Jerusalém (vv. 20-24).
5) Desastres cósmicos (vv. 25-33)
6) Exortação final (vv. 34-36)
7) Inclusão com 19, 47-48 (vv. 36-38)
Esse esquema mostra como, no texto, os
eventos do fim do mundo são relacionados à destruição de Jerusalém, e assim
sublinha a mensagem cristológica: a crise que Jerusalém enfrentou no ministério
de Jesus é uma previsão da crise que Ele e a Sua mensagem, e especialmente a
Sua vinda como o Filho do Homem, trarão a “todos aqueles que habitam a face de
toda a terra” (v. 35).
Um termo que perpassa o texto a partir do
v. 7 é “estas coisas”. Este termo muda de referências durante a passagem - da
destruição do Templo para a destruição de Jerusalém para a destruição do mundo
todo.
Os discípulos devem cuidar para não serem
enganados por falsos Messias! E não devem impressionar-se com guerras,
revoluções ou outros eventos estrondosos. Uma advertência que vale muito para
os dias de hoje! É só lembrar algumas reações fundamentalistas diante dos
eventos mais chocantes nos dias de hoje! Quantos falsos Messias, quanto pavor, quantos
profetas de destruição! Mas não é ainda o fim.
A partir de versículo 12, Jesus procura
animar os seus discípulos, para que possam aguentar a perseguição futura (que
na verdade já estava começando no tempo de Lucas). E a perseguição não viria
somente da parte das autoridades do Império (a de Nero já tinha acontecido
quase vinte anos antes, embora, na prática, limitada à cidade de Roma). Os
próprios pais, parentes e amigos tornar-se-iam perseguidores. Realmente isso
aconteceria a partir do ano 85, quando o judaísmo se reorganizou na forma
rabínica, com o Sínodo de Jâmnia. A partir de então, crescia o racha entre
cristãos-judeus e os judeus da linha farasaica, com os primeiros sendo expulsos
da sinagoga, e vistos como traidores do seu povo, da sua herança, da sua fé
javista. Com certeza, no tempo de Lucas, muitos já estavam vacilando diante
dessa situação de insegurança e perigo, e por isso o evangelista destaca tanto
a exortação de Jesus à perseverança e confiança.
A situação nossa de hoje é bem diferente -
nós não formamos uma minoria perseguida (no Brasil – mas a realidade é bem
diferente para cristãos em vários países do Oriente, por exemplo)! Mas a
mensagem permanece válida - ser cristão implica carregar a cruz! Não é possível
servir Jesus e os valores desta sociedade consumista e excludente! Ser cristão
é muitas vezes andar na contramão da sociedade, e acarreta necessariamente
conflitos com um mundo regido por outros valores. Uma Igreja acomodada, que não
incomoda a sociedade vigente, não seria Igreja do seguimento fiel de Jesus. (As
falas e ações do atual Papa já estão incomodando muita gente, inclusive dentro
da Igreja, pois demonstram que o seguimento de Jesus exige ações concretas que
nos põe em choque com a sociedade dominante e questiona uma prática religiosa
alienada e alienante!) Como é tentador buscar uma religião só de consolo e
prática individual - uma religião que a sociedade até estimula, pois relega o
Evangelho à esfera do íntimo, e tira dele a sua força transformadora. Lucas não
nos deixa esquecer que a fé em Jesus é altamente perigosa, pois não se conforma
com o mal, e por isso mesmo exige o seguimento de Jesus “no caminho” - até
Jerusalém, a cruz - e a Ressurreição.
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