Tema: Fraternidade: Igreja e Sociedade
Lema: "Eu vim para servir” (Mc 10,45)
Fonte: http://campanhas.cnbb.org.br/campanha/fraternidade2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
sábado, 21 de fevereiro de 2015
Primeiro Domingo da Quaresma ( 22/02/15 ) Mc,1 12-15

“Durante quarenta dias, no deserto, ele foi tentado por
satanás”
Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações
de Jesus no deserto - Marcos de uma forma resumida, Mateus e Lucas mais
detalhadamente. Mas, devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma
experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da
letra ou de uma maneira fundamentalista!
Uma coisa logo chama a atenção – nos três Evangelhos as
tentações vêm logo após o batismo de Jesus! O batismo significava o assumir
público da sua identidade e missão, como Servo de Javé. Logo após esse
compromisso, Ele tem que enfrentar as tentações. Aqui a experiência de Jesus é
como a nossa própria - nós temos compromisso com o projeto de Deus, mas, entre
o nosso compromisso e a nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas
tentações!!
Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o
deserto”. “Deserto” é essencialmente lugar ermo, árido, onde não há como
escapar um confronto consigo mesmo – e com Deus. Ele não é em primeiro lugar um
conceito geográfico, mas uma experiência de solidão – muitas vezes necessária e
saudável – no mais íntimo do nosso ser. O Espírito não conduz Jesus à
tentação, mas é a força sustentadora d’Ele durante as suas tentações. Como o
Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas
também poderão contar com este apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da
vivência da sua fé! Isso vale para nós hoje, como indivíduos e como
comunidades e Igrejas.
O relato mais desenvolvido de Lucas (Lc 4, 1-14) pode nos
ajudar a aprofundar o sentido das tentações de Jesus. Nelas podemos reconhecer
as mesmas tentações que nós, individualmente e comunitariamente, enfrentamos na
nossa caminhada da fé hoje! Primeiro Jesus é tentado a mandar que uma pedra se
torne pão. Podemos ver aqui a tentação do “prazer” - logo que enfrenta um sacrifício
por causa da sua opção, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das mais
comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos,
criando necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda.
Pois vivemos em uma sociedade que prega o individualismo, onde a regra é “se
quer, faça!”, e onde sacrifício, doação e solidariedade são considerados como
ladainha dos perdedores! É só olhar o número de casamentos que fracassam diante
da primeira crise, ou a quantia de seminaristas, religiosos/as e padres que
desistem, às vezes pouquíssimo tempo depois de professar os seus votos ou de se
ordenar, diante de uma sentida falta de “auto-realização imediata”. A resposta
de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem”. O homem vive de pão
certamente, mas não só! Jesus não é sádico, contra o necessário para viver
dignamente. Mas salienta muito bem que não é somente a posse de bens que traz a
felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha,
a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso
entre bens materiais e espirituais – ambos são necessários para que se tenha a
vida plena! Nessa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade
na simples posse de bens, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia
para todos!
A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. De novo
algo muito atual! Nós vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do
mercado, do neoliberalismo, do consumismo, do “evangelho” do mercado livre.
Diariamente, a televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é
necessário “ter mais”, e que não importa “ser mais”! Como sempre, a tentação
vem em forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a
simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma
pregação mais evangélica. Isso sem falar das pregações midiáticas que
glorificam um Deus que supostamente faz da posse de bens materiais sinal da sua
bênção! Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir o
caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também teve que enfrentar esta tentação
- Ele que veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta
preferencialmente pelos sofredores, é tentado a confiar nas riquezas! Para o
diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo
sacrificando a justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus,
e somente a ele servirá” (v. 8).
A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”.
Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos. Quantas vezes a
Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da cruz, para
“evangelizar”. Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que
diga! Ainda hoje todos nós enfrentamos esta tentação - não de ter poder para
servir, mas de confiar no poder aparente deste mundo, mais do que na fraqueza
aparente de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio
como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarificar a sua vocação e
despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor seu Deus” (v. 12).
Realmente,
podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as tentações do mundo moderno
- o ter, o poder e o prazer! Coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme
a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em
nossas vidas! Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o “diabo” que
está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de
discípulos. O relato de Lucas nos coloca diante da orientação básica para quem
quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (Lc 4,
8).
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br
sábado, 14 de fevereiro de 2015
6º DOMINGO COMUM - 15.02.2015 Mc 1, 40-45
“E de toda parte, as pessoas iam procurá-lo”
O primeiro capítulo de Marcos termina com um trecho que pode esclarecer o que significava para Jesus “ir adiante e pregar a Boa-Nova” (Mc 1, 38s). Marcos, diferentemente dos outros evangelistas, raramente nos conta o conteúdo da pregação de Jesus. Mas, ele ilustra esse ensinamento, relatando ações de Jesus que demonstravam o sentido da chegada do Reino e da sua Boa Notícia.
O texto de hoje conta a cura de um leproso. Os leprosos eram entre os mais marginalizados da época (mesmo que agora as pesquisas mostrem que a doença de Hansen como tal não existia na Palestina do tempo de Jesus, e que essas pessoas sofreram de diversas doenças da pele e não da Hanseníase, propriamente dita!). Eram obrigados a viver fora da cidade ou aldeia, longe do convívio social, por motivos higiênicos e religiosos (Lv 13, 45-46). A única esperança deste leproso de ser reintegrado na comunidade estava através de uma cura por parte de Jesus. Ele diz algo significativo : “se queres, tu tens o poder de me curar”. Pois, em Marcos, Jesus nunca faz milagre para despertar a fé - pelo contrário só faz milagre onde a fé já existe. O milagre em Marcos nunca causa a fé, mas é a fé que causa o milagre. Isso se torna importante recordar no nosso mundo tão entusiasto em correr atrás de supostos milagres e milagreiros, e pouco adepto a aprofundar a fé em Jesus no seguimento d’Ele até a cruz. O Evangelho de Marcos tem pouco lugar para a religião “light”, tão em voga hoje em diversos segmentos das Igrejas cristãs.
A reação de Jesus é interessante: “Jesus ficou cheio de ira” - certamente não com o leproso, mas com o sistema social e religioso que marginalizava uma pessoa humana em nome de Deus. As leis de pureza, inventadas pelos homens e atribuídas a Deus, tinham o efeito de excluir muitas pessoas da convivência humana e religiosa. O Evangelho nos desafia para que tenhamos a coragem de examinar as nossas leis e práticas para verificar se nós também não criamos classes de excluídos e cristãos da segunda categoria, em nome de Deus!
Depois da cura do leproso, encontramos um elemento característico do Evangelho de Marcos - o chamado “segredo messiânico”. Jesus proíbe que ele conte para os outros a história da cura! Que esperança! O homem sentiu necessidade de espalhar a boa-notícia da sua cura - naturalmente. Essa proibição vai aparecer muitas vezes em Marcos - e no relato da confissão de Pedro na estrada de Cesaréia de Filipe vamos ver o motivo atrás dele. Pois Jesus não quer que o povo siga-O, buscando prodígios e milagres, mas quer que todos se tornem os seus discípulos como o Servo de Javé, pegando a sua cruz na luta por um mundo melhor, a concretização do Reino de Deus. Por isso, é de desconfiar de pregações e celebrações religiosas que se limitam a experiências intimistas de Deus, frequentemente com uma certa manipulação das emoções e sentimentos dos participantes, sem um engajamento na transformação do mundo e das suas estruturas.
Finalmente, o homem deve apresentar-se aos sacerdotes para que a sua cura seja autenticada, segundo as leis levíticas. Pois para Jesus, não basta a cura individual - Ele quer que todas as pessoas sejam integradas em uma vivência comunitária sem marginalização por causa de gênero, classe social, raça, cor ou saúde! A fé em Jesus leva a um mundo totalmente diferente do mundo de exclusão que é a nossa atual sociedade, neo-liberal e consumista! Diante dessa boa-nova de inclusão, o povo excluído corre atrás de Jesus, pois Ele manifesta a verdadeira face de Deus a eles, o Deus de bondade e perdão, cujo rosto tinha sido escondido pelas leis de puro e impuro do Templo e do sistema sacerdotal e farisaica da época - “e de toda parte as pessoas iam procurá-lo”.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br
domingo, 8 de fevereiro de 2015
QUINTO DOMINGO COMUM - 08.02.2015 Mc 1, 29-39
“Foi
para isso que eu vim”
Este
texto de hoje pode ser dividido em três partes: vv 29-31 - a cura da sogra de
Pedro; vv 32-34: curas em Cafarnaum; vv 35-39: Jesus reforça a sua vocação e
missão pela oração. O conjunto forma uma unidade que pode nos ensinar coisas
importantes para a nossa vida de cristãos.
A
cura da sogra de Pedro faz contraste com a cura no texto no trecho anterior (1,
23-28). Aquela cura se dava em um lugar considerado “sagrado” - a sinagoga - enquanto
a de hoje se realiza em um lugar considerado “profano” - a casa; aquela era de
um homem, a de hoje de uma mulher; a primeira em um lugar público, a da sogra
em um lugar privado. Assim, Marcos enfatiza que a missão libertadora de Jesus
abrange tudo e todos, sem distinção de gênero, condição social, ou local. Jesus
mostra que na verdade não existem locais “sagrados” ou “profanos”, pois Deus
está, e age, em todo lugar onde há os seus filhos e filhas. A sogra, quando
curada, levanta-se e começa a servir os discípulos - ou seja, quem é libertado
por Jesus não se satisfaz com isso, mas em resposta coloca-se a serviço da
comunidade. O encontro com Jesus nunca é algo somente intimista, como querem
tantos grupos e movimentos hoje, mas sempre leva à comunidade e à missão.
A
cura das multidões de doentes nos mostra a situação do povo do interior da
Galiléia no tempo de Jesus - muitos doentes de todos os tipos, por falta de
recursos. Muito semelhante ao mundo e ao Brasil de hoje – tanta gente doente,
tanto fisicamente quanto psiquicamente, muitas vezes como consequência da
pobreza, falta de alimentação adequada e tensões provenientes das situações
intoleráveis em que tanta gente se encontra, no mundo de riqueza, esbanjamento,
consumismo e materialismo.. Jesus expulsa os demônios - que significavam, na
linguagem daquela época, tudo que oprimisse a pessoa humana, todas as
manifestações do mal. Como o texto anterior, o atual também nos convida a
descobrir quais as manifestações do mal que devem ser afugentadas da nossa
sociedade de hoje - as que deixam tantas pessoas sem saúde, sem recursos, sem
uma vida digna dos filhos/as de Deus. Convida-nos a lutar, não através de
“exorcismos”, muitas vezes teatrais e chocantes, mas através de uma luta
permanente e firme em favor dos Direitos Humanos do nosso povo sofrido, da
solidariedade nas comunidades, de políticas que favorecem o bem estar do povo e
não os interesses de poucos, e contra tudo que se opões a estes valores.
A
terceira parte do texto nos traz o segredo da força da missão de Jesus. Mesmo
esgotado com o trabalho em favor do povo, ele se levanta de madrugada para
ficar na intimidade com o Pai. Na solidão do sertão, em oração, ele reza a partir
da sua experiência da missão e se abastece com a força do Pai. Na solidão do
mato, Jesus achou a força para poder levar a sua missão até o fim, na
fidelidade – mesmo quando fracassou, humanamente falando! A atitude de Pedro e
dos companheiros é outra - “Todos estão te procurando!” Isso significa, “Você
está fazendo sucesso em Cafarnaum - volte para lá, faça mais sucesso ainda!” A
tentação permanente do poder e da fama - onde no fundo se busca a
auto-realização e o prestígio mais do que a vontade de Deus. Tentação muito
atual para nós, nos dias de hoje, com tanta manipulação da religião pelos meios
de comunicação. Mas Jesus não cai - a resposta d’Ele é contundente: “Vamos para
outros lugares, pois foi para isso que eu vim”. Jesus não deixa que a fama e o
prestígio o tirem do caminho do Servo de Javé - ele anda pelas aldeias da Galiléia,
lugares afastados e desprezados pelos “grandes” da sociedade, para levar a
compaixão de Deus aos mais abandonados e sofridos, nas “periferias” da
sociedade dominante de Israel.
Esse
trecho demonstra a dinâmica interna da vida de Jesus, que deve ser a da cada
vida cristã. Quanto mais ele trabalha na missão, mais ele sente a necessidade
de rezar. Mas, mais que reza, mais tem força para voltar à missão. Jesus não
está a serviço d’Ele mesmo, nem de uma estrutura - mas do Pai e do povo, dois
aspectos da mesma missão. O texto nos adverte contra duas tentações tão comuns
na Igreja de hoje - a de só trabalhar, sem aprofundar a vida íntima com Deus e
a de só “rezar” de uma maneira individualista e intimista, sem a dedicação à
missão. Jesus mostra que a missão leva à oração e a oração leva à missão - e
não a qualquer missão, mas à missão em favor da vida digna do povo sofrido e
oprimido, sinal da presença do Reino de Deus entre nós..
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristóvao.com.br
Assinar:
Postagens (Atom)


