“Pegou os pães, agradeceu a Deus e os distribuiu”
A liturgia de
hoje interrompe as leituras do Evangelho de Marcos e insere um trecho tirado do
capítulo sexto de João - o que comumente chamamos o milagre da “Multiplicação
dos Pães”. Logo, vale lembrar que este é o único milagre contado pelos quatro
evangelhos, tanto pela tradição sinótica como da Comunidade do Discípulo Amado.
Isso mostra claramente que, para as primeiras comunidades cristãs de diversas
tradições, a história hoje relatada possuía um grande valor e uma mensagem
muito importante.
Os quatro
relatos seguem basicamente o mesmo fio da meada, com as divergências próprias a
cada tradição e teologia. O enfoque mais “sacramental” ou “eucarístico” é do
João, mostrando mais uma vez uma das características da comunidade do Discípulo
Amado: a de ter uma teologia eucarística mais desenvolvida.
Embora seja
um dos relatos mais conhecidos dos evangelhos, vale a pena sublinhar um
elemento que talvez possa parecer estranho: embora nós sempre nos refiramos ao
milagre da “multiplicação dos pães”, em nenhum dos quatro relatos usa-se o
verbo “multiplicar”! Usam-se outros termos nos quatro evangelhos: “pegar”,
“benzer” “distribuir”, “partilhar”! Não é o caso de discutir aqui o que foi que
Jesus fez! Nem teríamos condições de descobrir. O enfoque é outro. Se os
evangelistas tivessem colocado a ênfase sobre o “multiplicar”, ou seja, sobre o
estritamente milagroso, então a história não teria grandes conseqüências para
nós hoje, pois nós não temos o poder de fazer milagres! Mas, colocando a ênfase
sobre a o “partilhar” e o “distribuir”, então os evangelistas nos desafiam
hoje! Pois, partilhar e distribuir estão ao nosso alcance!
No Brasil,
com tanta gente assolada pela injustiça e miséria, não precisamos multiplicar
nada! O Brasil não precisa multiplicar terras - somos um dos maiores países do
mundo! Nem precisa multiplicar a renda - somos a oitava ou nona potência
econômica do mundo! Não! O que precisamos é de uma partilha e uma
redistribuição das terras e da renda. O que precisamos é uma mudança de
mentalidade, de coração e das estruturas, e não milagres paliativos. A história
de João e dos outros evangelistas insiste que a solução para a carência se acha
na solidariedade, na partilha e na redistribuição, a partir da nossa fé no Deus
da Vida.
Outro
elemento importante no relato joanino do evento é a atuação do menino que tinha
cinco pães de cevada e dois peixinhos - o seu lanche. Mesmo sendo suficiente
somente para ele, ele dispõe dos pães e peixes, através de André. Esse gesto de
partilha, abençoado por Jesus, faz com que todos se fartem! O relato ressalta
que foram pães de cevada - a comida do pobre. Também aqui há uma releitura de
um evento na vida do profeta Eliseu, que também “multiplicou” pães de cevada
(2Rs 4, 42-44). Sem a colaboração deste rapaz simples, oferecendo o pouco que
tinha, Jesus não poderia ter alimentado essas pessoas. Assim, o texto nos
desafia para descobrirmos quais são os “cinco pães de cevada” que cada um tem,
e de colocá-los a serviço da comunidade. Quando todos partilham o pouco que
têm, sobrará! Quando cada um que tem algo segura para si, falta para muitos!
Já
mencionamos que João, colocando o relato no capítulo sexto, onde tem o discurso
do Pão da Vida, focaliza o aspecto eucarístico. Participar da Eucaristia é
comprometermo-nos com o mundo de solidariedade e partilha, onde os bens
materiais - mais do que suficientes - serão distribuídos e partilhados, criando
assim, de uma maneira real entre nós, o Reinado de Deus. Como diz um canto de
comunhão, “Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar”. A mensagem da
“multiplicação” dos pães incomoda, e muito, pois aponta para as consequências
da nossa participação na Eucaristia!
Tomaz Hughes SVD
Fonte:wwwmatrizsaocristovao.com.br















