“Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os
Profetas”
Hoje, temos mais uma das controvérsias do Capítulo 22, esta
vez com os fariseus. De novo, a pergunta feita por um legista não é para
descobrir a verdade, mas para armar uma cilada para Jesus - o verbo traduzido
aqui como “para O pôr à prova” é o mesmo usado em v. 22, 8 (“armar cilada”). O
que seria o maior mandamento era discutido entre as diversas escolas rabínicas
da época - para alguns o maior era o amor a Deus, para a maioria era a
observância do sábado. O Antigo Testamento enfatiza a importância de amar a
Deus e de amar o próximo (Lv 19, 18 e Dt 6, 5). A originalidade de Jesus está
no fato de Ele assemelhar um ao outro, dando-lhes igual importância e,
sobretudo, na simplificação e concentração da Lei (que tinha 613 mandamentos)
nesses dois elementos. A colocação de Jesus exige uma forma correta de amor
próprio - não de egoísmo, mas de auto-respeito. A ligação íntima dos dois
mandamentos não é atestada antes de Jesus e marca um avanço moral importante.
Mais uma vez, Jesus desloca o eixo da questão, como fez
domingo passado na passagem sobre o imposto a César. Esta vez Ele se recusa a
entrar em discussões fúteis sobre leis, para enfatizar o papel central do amor
- tanto a Deus como ao próximo.
É importante frisar que o “amor” de que Jesus fala não é um
mero sentimento ou emoção, como muitas vezes é na linguagem de hoje. O amor é
uma atitude de vida, uma fidelidade à Aliança com Deus, uma vivência solidária
com os irmãos e irmãs. Obviamente, não é possível simpatizar-nos com cada
pessoa, nem gostar de cada pessoa. Mas, é possível superar antipatias e aversões,
na caminhada da construção do projeto de Deus para o nosso mundo.
A ligação essencial entre o amor a Deus e ao próximo
torna-se muito urgente hoje em dia, quando se dá tanto espaço a pregações
intimistas e formas alienantes de “espiritualidade”, que muitas vezes não
passam de uma busca disfarçada de auto-realização, mas que jamais levam a um
compromisso com a transformação da nossa realidade. A frase de Jesus
desautoriza qualquer pregação religiosa que separa o amor a Deus do amor ao
próximo - um amor não somente afetivo (que talvez muitas vezes nem possa ser),
mas, efetivo - concretizando de maneira prática a solidariedade e a justiça.
O nosso texto nos adverte contra qualquer tendência
alienante ou legalista - os mandamentos não são para serem discutidos, mas
vividos, no amor e compromisso. Para os rabinos do tempo de Jesus, o mundo todo
dependia da Lei, do serviço no Templo e dos atos de bondade. Mateus fez com que
a própria Lei dependa dos atos de amor solidário. Esse avanço feito por Jesus
desafia a todos nós para que não caiamos na tentação perene de separar os dois
aspectos do amor - não é possível amar a Deus sem que amemos o irmão, e o
verdadeiro amor ao próximo brota do nosso amor a Deus.
Tomaz
Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Imagem: Google
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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