“Foi
para isso que eu vim”
Este
texto de hoje pode ser dividido em três partes: vv 29-31 - a cura da sogra de
Pedro; vv 32-34: curas em Cafarnaum; vv 35-39: Jesus reforça a sua vocação e
missão pela oração. O conjunto forma uma unidade que pode nos ensinar coisas
importantes para a nossa vida de cristãos.
A
cura da sogra de Pedro faz contraste com a cura no texto no trecho anterior (1,
23-28). Aquela cura se dava em um lugar considerado “sagrado” - a sinagoga - enquanto
a de hoje se realiza em um lugar considerado “profano” - a casa; aquela era de
um homem, a de hoje de uma mulher; a primeira em um lugar público, a da sogra
em um lugar privado. Assim, Marcos enfatiza que a missão libertadora de Jesus
abrange tudo e todos, sem distinção de gênero, condição social, ou local. Jesus
mostra que na verdade não existem locais “sagrados” ou “profanos”, pois Deus
está, e age, em todo lugar onde há os seus filhos e filhas. A sogra, quando
curada, levanta-se e começa a servir os discípulos - ou seja, quem é libertado
por Jesus não se satisfaz com isso, mas em resposta coloca-se a serviço da
comunidade. O encontro com Jesus nunca é algo somente intimista, como querem
tantos grupos e movimentos hoje, mas sempre leva à comunidade e à missão.
A
cura das multidões de doentes nos mostra a situação do povo do interior da
Galiléia no tempo de Jesus - muitos doentes de todos os tipos, por falta de
recursos. Muito semelhante ao mundo e ao Brasil de hoje – tanta gente doente,
tanto fisicamente quanto psiquicamente, muitas vezes como consequência da
pobreza, falta de alimentação adequada e tensões provenientes das situações
intoleráveis em que tanta gente se encontra, no mundo de riqueza, esbanjamento,
consumismo e materialismo.. Jesus expulsa os demônios - que significavam, na
linguagem daquela época, tudo que oprimisse a pessoa humana, todas as
manifestações do mal. Como o texto anterior, o atual também nos convida a
descobrir quais as manifestações do mal que devem ser afugentadas da nossa
sociedade de hoje - as que deixam tantas pessoas sem saúde, sem recursos, sem
uma vida digna dos filhos/as de Deus. Convida-nos a lutar, não através de
“exorcismos”, muitas vezes teatrais e chocantes, mas através de uma luta
permanente e firme em favor dos Direitos Humanos do nosso povo sofrido, da
solidariedade nas comunidades, de políticas que favorecem o bem estar do povo e
não os interesses de poucos, e contra tudo que se opões a estes valores.
A
terceira parte do texto nos traz o segredo da força da missão de Jesus. Mesmo
esgotado com o trabalho em favor do povo, ele se levanta de madrugada para
ficar na intimidade com o Pai. Na solidão do sertão, em oração, ele reza a partir
da sua experiência da missão e se abastece com a força do Pai. Na solidão do
mato, Jesus achou a força para poder levar a sua missão até o fim, na
fidelidade – mesmo quando fracassou, humanamente falando! A atitude de Pedro e
dos companheiros é outra - “Todos estão te procurando!” Isso significa, “Você
está fazendo sucesso em Cafarnaum - volte para lá, faça mais sucesso ainda!” A
tentação permanente do poder e da fama - onde no fundo se busca a
auto-realização e o prestígio mais do que a vontade de Deus. Tentação muito
atual para nós, nos dias de hoje, com tanta manipulação da religião pelos meios
de comunicação. Mas Jesus não cai - a resposta d’Ele é contundente: “Vamos para
outros lugares, pois foi para isso que eu vim”. Jesus não deixa que a fama e o
prestígio o tirem do caminho do Servo de Javé - ele anda pelas aldeias da Galiléia,
lugares afastados e desprezados pelos “grandes” da sociedade, para levar a
compaixão de Deus aos mais abandonados e sofridos, nas “periferias” da
sociedade dominante de Israel.
Esse
trecho demonstra a dinâmica interna da vida de Jesus, que deve ser a da cada
vida cristã. Quanto mais ele trabalha na missão, mais ele sente a necessidade
de rezar. Mas, mais que reza, mais tem força para voltar à missão. Jesus não
está a serviço d’Ele mesmo, nem de uma estrutura - mas do Pai e do povo, dois
aspectos da mesma missão. O texto nos adverte contra duas tentações tão comuns
na Igreja de hoje - a de só trabalhar, sem aprofundar a vida íntima com Deus e
a de só “rezar” de uma maneira individualista e intimista, sem a dedicação à
missão. Jesus mostra que a missão leva à oração e a oração leva à missão - e
não a qualquer missão, mas à missão em favor da vida digna do povo sofrido e
oprimido, sinal da presença do Reino de Deus entre nós..
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristóvao.com.br

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