“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”
O
texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos. Até uma
leitura rápida vai trazer lembranças dos seus textos sobre o seguimento de
Jesus, p. ex. Lc 9, 22-25: “Se alguém
quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”,
entre outros. João faz uma redação conforme a sua teologia e enfatiza que o
seguimento de Jesus se dá no serviço a Ele, ou seja, na luta em favor do seu
projeto. Todo o Evangelho de João manifesta que o serviço a Jesus se dá no
serviço aos irmãos e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar ao
serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois o projeto de Jesus de
fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida – ele será como o grão do trigo que, se
não cai na terra e não morre, fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (v. 24). Não que Jesus quisesse
a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento do projeto do Pai, por
causa da oposição garantida de grupos de interesse da sociedade do seu (e do
nosso) tempo – e apesar das aparências, não levam à derrota, mas à vitória.
Jesus não veio para ser triunfalista, mas para dar a vida em favor de todos.
Essa
visão que Jesus tinha da missão do Messias não era a comum - em geral as
pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante, glorioso e guerreiro. A
Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança;
mas, na verdade, nós muitas vezes criamos Deus em nossa imagem e semelhança,
para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos
impor, de seguir um messias triunfante, e não o Servo Sofredor. Mas, para
Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre:
“S e alguém quer servir a mim, que me
siga” (v. 26).
O seguimento de Jesus leva à cruz; pois, a vivência
das atitudes e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes
contrários ao Evangelho. Mas é importante compreender o sentido de “carregar a
cruz”. Não é agüentar qualquer sofrimento. Se fosse assim, a religião seria
masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o
projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus
fazia na sua época e situação social e cultural, mas o que Ele faria se
estivesse aqui hoje, diante dos desafios da nossa sociedade, convivência e
situação concreta. Isso o levou a ser assassinado, não pelo povo, mas por
grupos de interesse bem claros, “os
anciãos, os chefes dos sacerdotes e
os doutores da Lei”, (a elite
dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito,
os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os
mesmos interesses dos oponentes de Jesus, sejam eles sócio-políticos,
econômicos ou religiosos – normalmente tudo vem misturado! Por isso, sempre
haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”,
sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem
consequências sociais, políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na
tentação de Pedro, conforme o relato Sinótico, quando rejeitava o seguimento de
um Messias que daria a sua vida (Mc 8, 32).
Mas que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não
tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para
nós pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa
maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com
qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz conseqüências sociais, que
não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Fiquei triste há pouco
tempo ao ouvir uma senhora que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a
uma Igreja da Teologia de Prosperidade, na verdade uma empresa multi-nacional,
exclamar “agora achei o Jesus que eu
queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria, mas não o Jesus real! Pois o
Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou bem
claro: “Quem tem apego à sua vida vai
perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, vai conservá-la para a vida
eterna” (v. 25). É claro que aqui se usa um semitismo – o contraste com o “apegar-se” é expresso no verbo “desprezar”- o que significa “amar menos”. Essa opção é difícil –
embora João não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando
Jesus diz “estou perturbado” (v. 27).
Mas, o Pai lhe deu força, como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no
seguimento de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção de uma
sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham a possibilidade
de
terra dignidade e vida plena
dos filhos e filhas de Deus e de cidadãos da sociedade.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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