“A paz esteja com vocês!”
No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a
notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que
aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da
infidelidade de todos eles, mas, somente a alegria e a paz, que já tinha
prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a
comunidade dos seus discípulos - “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do
shalom, é importante na vida de Jesus..
No Discurso de Despedida, na tradição da Comunidade do
Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança,
junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o seu grande
dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu
dou para vocês não a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27). Ele teria
usado a palavra tradicional dos judeus para a paz, “Shalom”. É uma paz baseada
na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com
vocês! Recebam o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22). Enfatiza que não é
a paz como o mundo a entende - muitas vezes simplesmente como a ausência de
briga, ou até repressão policial. Frequentemente a paz que o mundo dá é aquela
falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do
povo sofrido - como tantos países experimentaram, e continuam a experimentar
hoje, durante as ditaduras de direita e da esquerda. O “shalom” é tudo o que o
Pai quer para o seu povo. Inclui tudo que é necessário para uma vida
digna – saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego etc. Só
existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as
necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e
das suas consequências. O “shalom” dos discípulos não pode ser perturbado pelo
fato da partida de Jesus, pois é através da volta do Filho para o Pai que o
Shalom vai se instalar.
O “shalom”, a verdadeira paz, é um dom de Deus - mas também
um desafio para nós, os seus discípulos/as. Pede a colaboração humana! Diante
de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do
latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a
atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com
sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma
minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes,
este shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino;
mas, quem experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta
a verdade da frase de Jesus: “não fiquem perturbados, nem tenham medo” (Jo 14,
27), pois disse Ele, “eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Frequentemente, uma
leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da
direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e
progresso” na visão positivista das elites dominantes. Mas, o próprio texto do
Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo
diz com todas as letras em Mt 10, 34: “Não pensem que eu vim trazer paz à
terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”.
Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo
contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica
numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética d’Ele revelaria as
divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas.
Pois, a sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da
violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima com não-ação.
Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do
Reino, entre os quais o Shalom tinha lugar premente; por isso, Ele foi morto
pelos interesses ameaçados por esta pregação do verdadeiro shalom - uma aliança
de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos. Por isso devemos
sempre “fazer a memória de Jesus” - da sua pessoa e do seu projeto, para que
tenhamos critérios certos para verificar a presença - ou ausência - do “shalom”
na nossa sociedade, e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que
Deus quer.
O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já
existe a força contrária, a do anti-Reino. Assim também, o shalôm não nasce em
um vácuo - cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando
disfarçada como paz. Por isso, será sempre conflituoso - pois inevitavelmente
provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a Ele exigirá uma
mística profunda! Uma vida dedicada à construção do Shalôm tem como fundamento
uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um
mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma
simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias
que esses elementos possam ser. A inspiração última da nossa luta pelo shalom
tem que ser enraizada na nossa fé - por ser coerente com o Deus em que nós
acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve
o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que
desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida
(cf. Êx 3, 7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se
fez carne e armou sua tenda no meio de nós (Jo 1, 1.14), vindo para que todos
tenham a vida e a tenham plenamente (Jo 10, 10). Por isso, devemos ouvir de
novo a voz profética de Jesus que conclama a todos nós à conversão:
“Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1, 14).
As raízes da violência, do anti-Reino, estão dentro de
todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer
discriminação, quando defendemos a violência contra qualquer pessoa ou grupo,
quando aplaudimos os maus tratos contra quem quer que seja, quando
interpretamos a vida a partir dos opressores, quando nos entregamos à inveja e
ao ciúme, ao ódio e raiva, ao racismo, machismo, classismo, ou a qualquer outro
"ismo" que nos divide - estamos nos opondo ao shalôm de Deus. Quando
colocamos a propriedade particular como um valor em cima da vida humana, quando
defendemos a pena da morte, quando apoiamos politicamente estruturas que
acumulam bens nas mãos de poucos, quando aceitamos a ideologia do
neoliberalismo, com o seu Deus do lucro, o seu evangelho de competitividade que
faz do irmão e irmã os meus rivais, estamos contribuindo para que o shalôm não
aconteça. A batalha - e é batalha - contra a violência em favor da paz se
travará em muitas frentes - dentro de cada um de nós, nas instâncias de poder
político, religioso, eclesial, social e cultural. Os cristãos de todas as
Igrejas terão uma responsabilidade muito grande de se tornarem arautos do
shalôm, protagonistas de uma nova ordem social, seguindo as pegadas do Mestre
que desmascarava a violência sofrida pelo seu povo - muitas vezes em nome de
Deus - e trouxe a proposta de um mundo diferente, baseado nos valores do Reino.
Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo
termo) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com
o Espírito Santo.
Normalmente, imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os
discípulos em Pentecostes, como Lucas descreve em Atos, mas aquilo era a
descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo.
Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da
glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a
ver com o perdão dos pecados.
Mais uma vez, no primeiro dia da semana, Jesus aparece aos
discípulos (notem a ênfase sobre o domingo - duas vezes). Esta vez, Tomé está
presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século,
que estavam vacilando na sua fé na Ressuscitado, diante dos sofrimentos e
tribulações da vida. Assim nos representa, quando nós vacilamos e duvidamos.
Jesus nos fortalece com as palavras “Felizes os que acreditaram sem ter visto!”
Essa muitas vezes será a realidade da nossa fé - acreditar contra todas as
aparências que o bem é mais forte do que o mal, a vida do que a morte, o Shalom
do que a prepotência! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do
Ressuscitado vai nos dar essa firmeza.
Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para
Javé (Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos
deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de
quem Ele era; aqui Tomé lhe dá o título final e definitivo - Jesus é Senhor e
Deus!
Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o
Evangelho terminava (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No
início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora, Ele repete essa
afirmação e abençoa todos os que O aceitam baseados na fé! A meta do Evangelho
foi alcançada - mostrar a divindade de Jesus, para que acreditando, todos
pudessem ter a vida n’Ele.
Tomaz
Hughes SVD
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br

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