“Quem
não está contra nós está a nosso favor”
O texto de hoje nos coloca mais uma vez no contexto do
ensinamento de Jesus aos seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém.
Já vimos que a partir da “crise galilaica”, Jesus mudou a sua estratégia,
afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa dos seus
discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do
Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava.
A primeira atitude a ser corrigida, nos versículos de hoje,
é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João
se queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de
Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, sequestrar o
poder divino! Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos
setores mais retrógrados das Igrejas ainda hoje, que acham que toda a riqueza
do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas das suas
definições dogmáticas! Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um
discípulo: “Não lhe proíbam, pois... quem não está contra nós, está a nosso
favor” (v. 40). Temos que aprender a acolher as manifestações verdadeiras do
Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós
mesmos não O escondamos ou deturpemos! Discernimento deve ser uma atitude
permanente de vida!
A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do
escândalo aos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos”
neste texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã.
É bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”. Vem de um termo grego
que significa “pedra de tropeço”. Então se trata de uma situação em que os
pequenos da comunidade “tropeçam”, isso é, não conseguem manter-se em pé ou se
afastam, por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar
que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos, e não aos de fora).
Deve ter sido um problema comum, pois o Discurso Eclesiológico (isto é, da
Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mt 18, 6-14). Usa
imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda cortar e jogar fora “a
mão, o pé, e o olho”, que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se
propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem
assim o entendesse - por exemplo, Orígenes. “Mão” significa a nossa maneira de
agir, “pé” o modo de caminhar na vida e “olho” o jeito de ver e julgar as
coisas, ou até, a nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das
comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros etc.) a
reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estão
causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim esteja
acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora” - ou seja, mudar o que causa o
problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do
Reino de Deus - a vivência dos valores do Evangelho, que Jesus deu a vida para
estabelecer.
A caminhada
para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para
quem quer segui-Lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a
mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e
semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro
ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e
pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos
valores do Reino de Deus. O Papa Francisco nos dá o exemplo, enraizado
como está no espírito de Jesus e na Palavra. Que tenhamos a abertura e a
coragem de praticar o que ele nos ensina.
Pe. Tomaz Hughes SVD
-mail : thughes@netpar.com.br
Imagem: www. diocese-sjc.org.br
Pe. Tomaz Hughes SVD
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