“Esta é a voz de quem grita no deserto: preparem o caminho
do Senhor”
Atrás das informações históricas deste texto, referentes às
autoridades seculares e religiosas que teriam influência nos primórdios do
cristianismo, jaz a realidade trágica da resposta negativa deles à Palavra de
Deus e aos seus mensageiros, João o Batista, e Jesus, o Cristo! Na pessoa
do Pôncio Pilatos, a autoridade romana vai agir na decisão de assassinar o
Messias; entre os governantes da Palestina, Herodes Antipas aparece
diversas vezes no Evangelho, sempre com juízo negativo, e será o responsável
pela morte de João, além de estar presente no sofrimento de Jesus na
Semana Santa; Anás (Sumo Sacerdote de 6 - 15 d.C) e o seu genro Caifás
(Sumo Sacerdote de 18 -37 d.C) só funcionam porque os romanos permitiam e
realmente foi a eles que serviam. Os Sumos Sacerdotes sempre serão hostis
a Jesus e à sua pregação e no fundo eram eles os responsáveis pela sua morte.
No meio deste elenco de poderosos corruptos e
perseguidores, Deus manda João Batista, como arauto do novo tempo de graça e
salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra
final na história da humanidade. Essa será mais tarde a mensagem básica
do Apocalipse - o mal já é um derrotado, e embora possa parecer diferente, é
Deus e não a maldade que controla a caminhada da história. Mensagem de
conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século. Mas esta
vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz!
Lucas põe na boca de João um trecho de Isaías:
“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o
caminho do Senhor, endireitem as suas estradas. Todo vale será aterrado,
toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os
caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de
Deus”( v.4-6)
Sem dúvida, podemos entender este trecho com sentido
metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem
quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento. Os vales a serem
aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a
serem nivelados, simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento mais
radical e coerente de Jesus. Quem aceita a sua mensagem terá que mudar
radicalmente - isso é, na raiz - a sua vida. Advento, embora não seja
tempo de penitência no sentido que a Quaresma é, se torna tempo oportuno para
uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas, e pedras
que teremos que tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos nossos
corações. O Papa Francisco indica um elemento a ser vivido mais profundamente
na vida individual de todo cristão, e na comunidade da Igreja: A misericórdia,
tema tão caro ao autor do Terceiro Evangelho, e algo que muitas vezes falta nas
nossas relações em todos os níveis.
O último versículo:“E todo homem
verá a salvação de Deus”( v. 6) faz eco ao tema lucano da universalidade da
salvação, usando esta frase que não se encontra no texto paralelo de Mc
1,3. Ninguém é excluída da mensagem e oferta da salvação. Mas a
resposta depende de cada um de nós!
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Imagem: Google - catedralsaocarlos.com.br/artigos/simbolos-do

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