“Coragem!
Sou eu! Não tenham Medo!”
É comum ler nos jornais e revistas
os resultados de pesquisas que apontam o medo e a insegurança entre as
principais preocupações do nosso povo – o medo da violência, do desemprego, da
pobreza, da solidão, da velhice e muitos outros. O medo parece até tomar conta de uma boa
parta das nossas instituições – o medo de tomar as medidas necessárias para uma
justa reforma agrária, por parte das autoridades competentes; o medo por parte
de muitos líderes religiosos diante dos desafios do mundo de pós-modernidade,
levando até a paralisia e o fechamento; o medo de procurar novas soluções para
novos desafios. O medo parece ser a
força motora da atividade – ou da falta da mesma – de muitas pessoas, grupos e
instituições.
A comunidade eclesial onde nasceu o
Evangelho de Mateus também sentia medo.
Os seus membros (na sua maioria judeu-cristãos, bem diferente
etnicamente das comunidades lucanas) enfrentavam oposição e perseguição por
parte das autoridades das sinagogas. A
comunidade estava em luta com o chamado “judaísmo formativo”, para definir o
rumo que o judaísmo iria tomar depois do desastre de 70 d.C. quando foram
destruídos Jerusalém e o Templo. Com a eliminação, pela repressão romana ou por
guerra civil, dos Saduceus, dos Zelotas e dos Essênios, somente dois grupos
organizados sobreviveram para disputar a liderança dentro do judaísmo – o da
linha farisaica e o grupo judeu-cristão, representado pela comunidade de
Mateus. Era uma luta de muito radicalismo,
como costuma acontecer nas brigas fratricidas.
O sofrimento da comunidade de Mateus é retratado em Mt 10, 22: “Sereis odiados por todos por causa do meu
nome. Mas quem perseverar até o fim será
salvo”.
É neste contexto que se entende o
texto de hoje. Os discípulos, ao verem
Jesus, acham que é um fantasma e ficam apavorados. A comunidade de Mateus era semelhante –
diante da perseguição e do sofrimento, Jesus parecia para eles um fantasma –
uma ilusão, uma fugacidade, incapaz de dar sustento à sua vida comunitária de
fé. Diante do medo dos discípulos, Jesus
é taxativo: “Coragem! Não tenham medo! Sou eu!”. Mateus relata
essa história – acrescentando esses elementos em comparação com o texto mais
sóbrio de João 6, 16-21 – para ajudar a sua comunidade a entender que Jesus não
é fantasma, mas uma presença real, vivificante, fortalecedora e libertadora no
meio da comunidade, especialmente na hora das dificuldades e perseguições.
Tipicamente, o Evangelho de Mateus
destaca à figura de Pedro (como também em 16,13-20; 17,24-27). Pedro era personagem muito importante em
Antioquia, talvez o local da última redação de Mateus. Aqui Pedro é o protótipo do discípulo – cheio
de amor, mas com uma fé enfraquecida pela dúvida. O estender da mão de Jesus é um convite a
Pedro, à comunidade de Mateus, e a nós hoje para dar uns passos para o desconhecido,
para não nos fechar nas nossas seguranças, freqüentemente falsas, que nós
mesmos construímos, mas de termos a coragem de enfrentar os ventos da vida,
mesmo quando contrários, pois Jesus está realmente conosco e como disse Paulo “Se Deus está conosco, quem estará contra
nós?” (Rm 8,31).
Ter fé e não ter medo por causa de
Jesus não quer dizer: “Não tenham medo,
confiem em Deus, e Ele garantirá que as coisas que os amedrontam não lhes
acontecerão”, mas antes: “Não tenham
medo, confiem em Deus. É bem possível que as coisas que os amedrontam vão lhes
acontecer, mas não devem ter medo disso, porque Deus estará ao seu lado”!
A fé em Deus não tira os nossos sofrimentos e
dificuldades, como querem tantos hoje, mas nos dá as forças necessárias para
vencê-los. Deus não é um analgésico para as dores e dificuldades da vida, mas
uma presença amorosa que anima, fortaleça e estimula, pois, como disse Paulo “a fraqueza de Deus é mais forte do que os
homens” (I Cor 1, 25)
e-mail:
thughes@netpar.com.br
Imagem: www.noticiascatolicas.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário