“E vocês, quem dizem que
eu sou?”
Aqui temos a versão mateana da
profissão de fé de Pedro, que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o
seu evangelho. Este trecho levanta as
duas perguntas fundamentais de todos os Evangelhos: Quem é Jesus? O que significa
ser discípulo dele?
São duas perguntas interligadas, pois a segunda
resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a
maneira do meu seguimento dele.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto
inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” É inócua, pois não compromete quem responde -
o “diz que” compromete ninguém, pois
expressa a opinião de outros. Por isso
chove respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, Jeremias, ou um dos
profetas!”. Mas Jesus não quer parar aqui - esta pergunta
foi só uma introdução. Depois vem a facada!: “E vocês, quem dizem que eu sou?”
Agora não há muitas respostas, pois quem
responde vai se comprometer - não será a opinião de outros, mas a pessoal! Esta opinião traz conseqüências práticas para
a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O
Messias, o Filho de Deus vivo”.
Aqui Mateus acrescenta vv. 17-19, pois quer
destacar o papel de Pedro (e, por
conseguinte, dos líderes da sua própria comunidade), na função de ligar e
desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap. 18 é chamada
de “Igreja”. “As chaves do Reino” não se refere ao
poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos
discípulos.
O fundamento, o alicerce, dessa
comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro “Tu és o Messias, o Filho de Deus
vivo”. Mas continuam no ar as
duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é Jesus?”, e “o que significa segui-lo?“ Pois os termos que Pedro usa são ambíguos,
porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude,
aparentemente estranha: “Ele ordenou os discípulos que não dissessem
a ninguém que ele era o Messias!” Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fala a verdade sobre
ele! Como é que ele espera angariar
discípulos deste jeito? O assunto merece
mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos
de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever
Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que
significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender este termo
conforme os seus desejos. Jesus quer
deixar bem claro que ser “messias” (um termo hebraico; em grego seria “cristo”,
e significa “ungido”) para ele é ser o “Servo de Javé”. É vivenciar o projeto
do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades
políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo. Não significa ser o Messias nacionalista e
triunfalista das expectativas de então.
No nosso tempo, quando é moda apresentar um
Jesus “light”, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a
transformação social, o texto nos desafia para clarificar em que Jesus
acreditamos? O Jesus sentimental, que
existe para resolver os meus problemas, tão amado por setores da mídia, e
também de grandes setores das Igrejas, ou o Jesus bíblico, o Servo de Javé, que
veio para dar a vida em favor de todos? O
Jesus da “teologia de prosperidade” ou o Jesus proclamado quase diariamente
pelo Papa Francisco, o Jesus de Nazaré verdadeiro? Esse assunto virá à tona no Evangelho do
próximo domingo.
Tomaz
Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
Imagem: Congregação do Vero Divino
Fonte: matrizsaocristovao.com.br

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