Mt 20, 1-16
“Os últimos serão os primeiros”
Há um consenso entre os estudiosos da Bíblia de que o centro
da pregação de Jesus era “O Reino de Deus” (ou dos Céus, que, em Mateus,
significa a mesma coisa). Mas, Jesus nunca define o Reino; pelo contrário,
sempre o descreve por meio de parábolas, para que o ouvinte se esforce para
descobrir quais são os valores que tornam o Reino de Deus presente no meio de
nós.
A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola
do povo da Galileia. Era uma região rica, de terra boa, mas com o seu povo
empobrecido, pois as terras estavam nas mãos de poucos, e a maioria trabalhava
ou como arrendatários ou como “bóias-frias” como diríamos hoje. Embora a cena
situe-se na Galileia de dois mil anos atrás, bem poderia ser o Brasil da
atualidade! Apresenta uma situação de trabalhadores braçais desempregados, não
por querer, mas “porque ninguém os contratou” (v 7). Talvez haja uma diferença,
comparando com a situação de hoje - na parábola, o salário combinado era uma
moeda de prata, um denário, que na época era o suficiente para o sustento de
uma família por um dia - o que nem sempre se verifica hoje.
O texto nos ensina que a lógica do Reino não é a lógica da
sociedade vigente. Na nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz - logo,
quem não produz não tem valor. Assim se faz pouco caso do idoso, aposentado,
doente, excepcional. Na parábola, o patrão (símbolo do Pai) usa como critério
de pagamento, não a produção, mas o sustento da vida - também o trabalhador da
última hora precisa sustentar a família; e por isso, recebe o valor suficiente,
um denário.
O Reino tem outros valores da sociedade neo-liberal do nosso
tempo - a vida é o critério, não a produção. Por isso, quem procura vivenciar
os valores do Reino estará na contramão da sociedade dominante. O texto nos
convida a imitar o Pai do Céu, lutando por novas relações na sociedade e no
trabalho, baseadas no valor da vida, não na produção e consumo.
Para a comunidade de Mateus, a parábola tinha mais um
sentido. Começavam a entrar pagãos na comunidade, e muitos cristãos de origem
judaica tinham dificuldade em aceitá-los em pé de igualdade - eram “da última
hora”. Mateus conta a parábola para ensinar a eles que no Reino, experimentado
através da comunidade, não pode haver discriminação entre cristãos de várias
origens; por isso, “os últimos serão os primeiros”. O critério é a gratuidade
de Deus Pai, pois tudo o que temos, recebemos d’Ele, e sendo todos filhos e
filhas amados d’Ele, a comunidade cristã não pode discriminar pessoas, por
qualquer motivo que seja.
Tomaz
Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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