Jo 3, 13-17
“Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o
mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio d’Ele”
A liturgia da Igreja Católica hoje
interrompe a série dos Domingos do Tempo Comum para celebrar a Festa da
Exaltação da Santa Cruz. Essa festa litúrgica tem destaque maior nas Igrejas do
Oriente, onde é comparada com a Festa de Páscoa.
A sua celebração tem as suas origens ligadas à dedicação das
basílicas constantinianas construídas nos lugares tradicionalmente
identificados com Calvário e o Santo Sepulcro. O título “Exaltação da Santa
Cruz” chama a atenção, pois destaca o grande paradoxo da nossa fé - foi
exatamente através da Cruz, o mais terrível entre os suplícios, que veio a
salvação. Humanamente falando, a morte de Jesus na cruz significava o fracasso
total da sua vida e missão, mas, de fato, escondia a vitória de Deus sobre o
mal, da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado - uma vitória que se
manifestaria ao terceiro dia, na Ressurreição. No mistério pascal da
vida-morte-ressurreição de Jesus verifica-se o que proclama Paulo na Primeira
Carta aos Coríntios: “Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os
sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é
forte. E aquilo que o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor, isso
Deus escolheu para destruir o que o mundo pensa que é importante.” (1Cor 1,
27s).
Torna-se muito importante resgatar uma
sadia teologia e espiritualidade da Cruz. De um lado temos que superar uma
pregação errada que identificava a Cruz com qualquer sofrimento, como se o
sofrimento em si fosse um valor positivo. Quantas pessoas sofreram injustiças a
vida toda, aguentando situações quase insuportáveis, por causa de tal pregação
que levava à passividade diante das injustiças e opressões. No fundo, faziam de
Deus um sádico! Do outro lado, na sociedade de hoje, a Cruz não está muito
popular, pois o sacrifício, a autodoação em favor de outros, está na contramão
da sociedade hedonista e consumista. Até dentro da Igreja muitas vezes há uma
busca da Ressurreição e vitória, sem que se mencione que o triunfo de Jesus
veio através de uma vida de doação que o levou à cruz - e como consequência
dessa coerência, à Ressurreição.
A festa de hoje celebra a Cruz, não o
sofrimento. Jesus não nos salvou porque sofreu três horas na cruz - ele nos
salvou porque a sua vida foi totalmente fiel à vontade do Pai. Por causa dessa
fidelidade, as suas opções concretas o colocaram em conflito com as estruturas
de dominação sócio-político-religiosas, o que causou o seu assassinato
judicial. A morte de Jesus foi muito mais do que uma tentativa de eliminar
alguém que incomodasse! Era tentativa de aniquilar o seu movimento, a sua
pregação, a visão de Deus e do projeto de Deus que Ele ensinava. A Cruz então
se tornava o símbolo de doação total através de uma vida de fidelidade absoluta
ao projeto do Pai. Era o último passo de coerência, consequência lógica da
fidelidade à vontade de Deus.
Assim, Jesus deixa bem claro nas páginas
dos Evangelhos que a Cruz é a característica do discípulo/a. “Se alguém quer me
seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga.” (Mc 8, 24). Jesus
não nos convida a buscar o sofrimento, mas a carregar a cruz - consequência de
uma religião que é vivencial, que acarreta ações e atitudes coerentes com o
Deus em que acreditamos, e que traz em seu bojo as sementes de conflito com
todo poder opressor, pois “os meus projetos não são os projetos de vocês, e os
caminhos de vocês não são os meus caminhos” (Is 55, 8).
Paulo descobriu que pregar Cristo sem a
Cruz era esvaziar a evangelização. Assim declara à comunidade de Corinto:
“Entre vocês eu não quis saber outra coisa a não ser Jesus Cristo e Jesus
Cristo crucificado.”(1Cor 2, 2). A Cruz de Cristo é inseparável da sua vida,
pois é a consequência dela. Mas, a Cruz também não se separa da Ressurreição,
pois ela é o resultado de tal coerência e fidelidade. A festa de hoje nos
desafia para que respondamos ao convite de Jesus para carregar a nossa cruz
numa vida de discipulado e missionariedade, continuando a sua missão ao mundo.
Pois, como diz o nosso texto hoje, “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para
condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo 3, 17)
Tomaz
Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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