“Faça-se em mim segundo a tua palavra”
Maria de Nazaré é a terceira figura importante nas leituras
do tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo, e mereceria um tratamento
muito mais pormenorizado. É essencial para entendermos a figura de Maria tal
como apresentada nas Escrituras.
No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe
àquela feita a Zacarias (Lc 1, 5-22). Ambos os textos seguem os passos
costumeiros da forma literária “anunciação” j;a conhecida no Antigo
Testamento. Há muitas semelhanças (Anjo Gabriel, confusão na parte do/a
recipiente, anúncio de um nascimento, perlexidade etc), mas no primeiro relato,
é feita a um sacerdote, idoso, no Templo. No texto de hoje, à uma moça, jovem,
no dia-a-dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote duvidou e ficou mudo,
simbolizando que os ritos do Templo não têm mais nada a dizer! Maria acredita e
é proclamada “bendita entre as mulheres” (1, 42).
Infelizmente, muitas vezes este trecho é interpretado de
maneira a nos apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão – e
ideologicamente foi usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja,
deveriam ficar passivas e sem expressão! Tal interpretação distorce totalmente
o que Lucas quer nos dizer!
Maria, embora não entenda plenamente (Lc 1, 29; 2,19; 2,
50s) aceita não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas ser
protagonista da realização desse plano divino. A frase “faça-se em mim” não
deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como o grito de entusiasmo de
quem quer ser colaboradora na realização do projeto que Deus tem para o mundo.
Não se refere somente ao fato de engravidar – isso seria muito pouco – mas à
grande visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante Lucas vai
mostrar o alcance dessa frase, quando na boca de Maria ele coloca o grande
canto de libertação, que é o Magnificat! Não é possível entender a profundidade
da frase de Maria na anunciação sem ler também o Magnificat (1, 46-55). O que é
que Maria quer quando ela pede que seja feita a vontade de Deus nela? Ela quer
a realização da vira-volta no mundo que é o Advento do Reino de Deus, quando
Deus vai “dispersar os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos
dos seus tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os
ricos de mãos vazias” (1, 51-53).
Em um mundo onde a realidade é a prepotência e a violência
dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres muitas vezes estão
na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista da
concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber o Salvador no
Natal deve comprometer-se de uma maneira concreta na construção de um mundo
novo, de justiça e fraternidade, tão contrário ao que vivemos hoje em tantos
lugares, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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