“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”
Uma leitura
superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso -
mas, isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um
relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos
mostra essas duas tradições: a primeira encontramos nos vv. 1-4, uma tradição
mais antiga e apocalíptica; a segunda nos vv. 5-11, mais profética e
missionária.
Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa,
onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três
grupos distintos: os Onze; as mulheres, entre as quais Maria a mãe de Jesus, e
os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas
diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam
reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram assíduos na oração” (At 1, 14). Ou
seja, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na
fé e no seguimento do projeto de Jesus.
O primeiro
relato (vv. 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da
manifestação da presença de Deus - o som de um vendaval e as línguas de fogo. A
expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o
“falar em línguas”- glossolalia - tão valorizado por muitos grupos de
cunho neo-pentecostal).
A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda, da casa
para um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da
presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos
os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At
1, 6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Três vezes o relato
destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv.
6.8.11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um
objetivo missionário e profético - de fazer com que toda a humanidade possa
ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas - ou
seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.
A lista dos
presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças, áreas geográficas,
culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Lucas ensina que a
aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a
dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura
específica. Durante séculos este fato foi esquecido nas Igrejas, e
identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural europeia. Nos últimos
anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de
anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das
diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a
língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu)
que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou
etnia pode identificar o Evangelho com a sua expressão cultural dele.
Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação
da Igreja de uma seita judaica para uma comunidade universal, missionária, mas
não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os
confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita
a um evento - é uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do
Espírito Santo: em uma comunidade em oração em uma casa (At 4, 31), sobre os
samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre
os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito Santo sopra onde
quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus.
Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação
missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e
do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os
povos, culturas, raças e etnias.
Jo 20, 19-23
No texto
anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos
discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há
reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles,
mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Duas
vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos - “A
paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir - embora de uma
maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom!”, que é muito mais do que
“paz” conforme o nosso mundo a compreende. O “Shalom” é a paz que vem da
presença de Deus, da justiça do Reino. Na verdade é tudo que Deus deseja para
todos os seus filhos e filhas. Como cantamos, “da justiça nascerá a paz.”
Jesus não promete a paz do comodismo; pelo contrário, envia os seus
discípulos na missão árdua em favor do Reino, prometendo o Shalom, pois,
Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.
Jesus
soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão quando
infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com o Espírito Santo.
Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os
discípulos em Pentecostes, usando a imagem de Atos 2; mas, aquilo era a descida
oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para
João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação
de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o
perdão dos pecados.
Que a celebração nos anime para que busquemos a criação de
um mundo onde realmente possa reinar o Shalom, não a paz falsa que
muitas vezes esconde a opressão e injustiça, mas do Reino de Deus, fruto de
justiça, solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito Santo - agora
depende de nós usarmos essa força que temos, na construção do mundo que Deus
quer.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte:blog.guiasjp.com/saocristovao

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