“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa-Notícia para
toda a humanidade”
O texto de Mc 9-20, que contém o fim do Evangelho de Marcos,
interrompe o fio da narração precedente, é muito diferente em estilo e
vocabulário do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos
manuscritos. Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como
“Apêndice”, provavelmente escrito no segundo século, e baseado
basicamente no Capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com
referências de fatos narrados em Atos. Embora não acrescente nada de novo para uma
melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos
muito importantes para a vida da Igreja hoje.
Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus - o de
levar a Boa-Nova para toda a humanidade (cf Mt 28, 18-20). A Igreja é por sua
natureza missionária, e uma Igreja que descuidasse desse mandato estaria
traindo a sua identidade. Porém, faz-se necessário distinguir entre “missão” e
“proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar fiéis de outras
Igrejas para a delas. Giram ao redor de si mesmas, identificando a sua Igreja
institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária tem como objetivo
levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões, respeitando-as,
sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas de boa vontade
a descobrirem a presença do Reino - e do anti-Reino - nas suas próprias
culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandato nos fará
lembrar que nós não somos donos da missão - a missão é do próprio Deus que
envio o Verbo Divino como seu missionário. Por sua vez, Ele deixou uma
comunidade de discípulos/as para continuar a sua missão da implantação do Reino
de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. Por este motivo existem diversos
carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem de todos. Ninguém está
dispensado dessa tarefa missionária, fechando-se na sua própria comunidade,
movimento, ou Igreja - pelo contrário, devemos nos sentir unidos aos irmãos e
irmãs do mundo todo e comprometidos com a construção da sociedade justa e
solidária que será uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo
da missão ao longo prazo é de reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que
ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Fazemo-lo através da proclamação
explícita da Boa Nova, e no estabelecimento de um diálogo respeitoso com
membros de outras tradições religiosas, e de nenhuma, convidando homens e
mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho e serviço e levando a cada
ser humano a missão divina de uma salvação integral.
O texto explicita alguns elementos importantes nessa
atividade missionária: “expulsão de demônios”: expulsando da convivência humana
os sinais do mal, do anti-Reino, que escraviza e oprime milhões de pessoas,
através de estruturas econômicas, sociais e até religiosas, de exclusão;
“falando línguas”: como em Pentecostes, criando uma nova língua do diálogo e
respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”-
superando tanto veneno semeado durante milênios na convivência humana,
expressado através do racismo, machismo, clericalismo, e todos os “ismos” que
excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando na prática para que “todos
tenham a vida e a tenham plenamente” (cf. Jo 10, 10), como fez Jesus, não
somente fazendo curas individuais, mas, restaurando a saúde integral, das
pessoas e da criação, através da vivência comunitária e individual do projeto
de Jesus. Seria trágico se esses elementos ficassem reduzidos à busca de
“milagres” duvidosos, à falação de supostas “línguas dos anjos”, e à satanização
de tanta coisa, confundindo expressões de desequilíbrio emocional com a
presença diabólica, o que parece ocofrrer com uma certa frequência em alguns
movimentos e Igrejas.
Durante séculos muitas vezes os cristãos têm se
acomodado com a vivência de uma religião individualista, acomodada e
frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação
artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa e a
transformação social. O mandato de semearmos a Boa Nova do Reino nos ajuda para
que sejamos mais fiéis a Jesus - não somente à sua pessoa, mas também à sua
prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade, em
palavra e ação, inspirados no seguimento de Jesus, o Missionário do Pai.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte:matrizsaocristovao.com.br

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