“Dava-lhes poder sobre os espíritos maus”
Esses
versículos dão início ao terceiro e último bloco da primeira parte do Evangelho
de Marcos (6, 6b-8, 21) que podemos intitular “a cegueira dos discípulos”. É a
continuidade dos primeiros dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades
e dos parentes de Jesus. O nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a
pena examinar mais de perto as frases que Marcos usa.
O primeiro
elemento é que a missão de Jesus, o de construir o Reino de Deus, continua na
missão dos discípulos. A base da missão é o compromisso com Jesus e o seu
projeto. Em nossos termos hoje, cumpre lembrar que a origem da missão está no
nosso batismo. Todos somos Discípulos-Missionários. Se somos clero, religiosos
ou leigos é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos nós. A
maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente e variar mas a missão é
fundamentalmente igual.
Ele os
enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão cristã é
comunitária! Não existe um cristianismo individualista. A nossa fé tem
consequências profundas comunitárias. Um alerta para que não caiamos na
tentação de criarmos uma religião individualista e intimista, tão comum no
nosso mundo de competitividade e pós-modernidade.
Jesus
dava-lhes poder sobre os espíritos imundos! Claro, aqui se expressa uma realidade
importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos imundos” significam
tudo que pudesse se opor ao Reino. Tudo cujos valores fossem diferentes do
Reino. Infelizmente, ainda hoje, muitos interpretam essas palavras ao pé da
letra, e criam uma religião que sataniza e demoniza quase tudo, uma religião de
exorcismos e diabos - mas sempre no nível intimista e individual. Devemos nos
perguntar - quais os espíritos imundos em nós, nas nossas comunidades, na nossa
sociedade, que precisam ser expulsos? Não é difícil achá-los: tudo que se opõe
à vida, à dignidade humana, à justiça e à solidariedade. Onde se vive o
Evangelho, não há lugar para o espírito de individualismo, de competitividade,
de exclusão, que é característica da nossa sociedade neoliberal, nossa
sociedade de morte! O cristão não pode compactuar com tal sociedade e com as
suas estruturas. As nossas celebrações não são para nos refugiarmos nelas, mas
para nos fortalecermos no esforço da criação de um mundo novo e diferente, pela
utopia de Jesus! Por isso, em primeiro lugar, os discípulos tinham que se
libertar do espírito de acúmulo - não levar coisas, como sinal da chegada do
Reino. Em nosso caso, teríamos que examinar se, mesmo sem notar, não
estamos vivendo o espírito de consumismo e materialismo, e acumulação e
supérfluo, que marca a ideologia na sociedade hoje.
Jesus os
adverte que nem todos iriam acolher a sua mensagem - pois a mensagem de Jesus
necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo, enraizado na
sociedade. Vale para os nossos tempos - uma Igreja comprometida com os valores
do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes desse mundo. Quando somos
bem aceitos por todos, é porque não questionamos, porque perdemos a nossa voz
profética! A Igreja verdadeira suscita mártires (literalmente, testemunhas) e
não acomodados! Que alegria celebrar há pouco a beatificação de Dom Oscar
Romero e testemunhar o início dos processos de beatificiação de Dom Helder
Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida, arautos e testemunhas da vida que Deus
almeja.
O nosso
texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade” da nossa
vida. A minha vida, a da minha comunidade, se resumem na vivência interna das
estruturas da Igreja, ou nos levam a ser testemunha no meio da sociedade,
profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras, mas
pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária (que não
significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos que, pelo batismo,
somos todos discípulos-missionários/as, continuadores da missão de Jesus!
Tomaz Hughes SVD
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br

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