“Jesus teve compaixão”
Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos um tema muito
central - o da “compaixão” de Jesus. Os evangelhos todos - e especialmente
Lucas - enfatizam este aspecto da pessoa e missão de Jesus. Ele demonstrou a
quem o encontrasse a verdadeira natureza de Deus: de ter compaixão para todos
os que sofrem.
Os versículos de hoje demonstram este traço de Jesus no seu relacionamento com
os discípulos e com as multidões.
Com os discípulos, Ele ressalta a necessidade de descanso depois das tarefas
apostólicas. Quando voltam empolgados com os resultados da missão, a primeira
reação do Mestre é convidá-los para uma retirada, para que possam refazer as
forças. Jesus tem critérios que não correspondem com o grande critério da nossa
sociedade - o da eficácia! Para Ele, os apóstolos não eram máquinas, mas
pessoas humanas que necessitavam de serem tratadas como tal. O trabalho - mesmo
o trabalho missionário - não é o absoluto. Jesus reconhece a necessidade de um
equilíbrio entre todos os aspectos da vivência humana. Aqui há uma lição para
muitos cristãos engajados hoje - embora devamos nos dedicar ao máximo pelo
apostolado, não devemos descuidar das nossas vidas particulares, do cultivo de
valores espirituais, da saúde e do relacionamento afetivo com os outros,
especialmente no seio da família. Caso contrário, estaremos esgotados em pouco
tempo, meras máquinas ou funcionários do sagrado, que não mostram ao mundo o
rosto compassivo do Pai.
Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o povo sofrido. Era
tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado pelos chefes
político-religiosos de então, que nem tinha tempo para comer. Quando Ele se
retirava, o povo ia atrás d’ Ele. O que atraía tanta gente? Com certeza não foi
em primeiro lugar a doutrina, nem os milagres, mas o fato de irradiar
compaixão, de demonstrar concretamente o amor compassivo de Deus. Jesus não
teve “pena” do povo, não teve “dó” dos sofridos. Teve “compaixão”,
literalmente, entrava no sofrimento deles e tinha uma empatia pelos sofredores,
que se transformava numa solidariedade afetiva e efetiva.
Este traço da personalidade de Jesus desafia as Igrejas e os
seus ministros hoje, para que não sejam burocratas do sagrado, mas irradiadores
da compaixão do Pai. Não é sem motivo que o Papa Francisco nunca cansa de
enfatizar a misericórdia e a compaixão – pois a fidelidade ao Mestre exige
isso. Infelizmente, a frieza humana frequentemente marca as nossas atitudes,
pregações e cuidado pastoral. Em um mundo que exclui, que marginaliza e que só
valoriza quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que nos
assemelhemos cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão diante das multidões,
hoje, como dois mil anos atrás, semelhantes a “ovelhas sem pastor”.
Tomaz Hughes SVD
Imagem: Google.com.br
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br

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