“E seguia Jesus pelo caminho”
Estamos no fim da caminhada de Jesus de
Cesaréia de Felipe até a sua morte e ressurreição em Jerusalém. No texto
de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre de Jesus
que ele relata - a cura do cego Bartimeu.
O texto começa com um senso de urgência -
chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que Jesus tem pressa para caminhar até
Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho!
Enquanto Jesus está “a caminho” com os discípulos d’Ele, o cego está à beira do
caminho, sentado! Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado
e estão parados, à beira do caminho do seguimento de Jesus.
Este texto está bem carregado de sentido.
Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente! “Filho de Davi,
tem piedade de mim!” É de novo um dos temas centrais da Bíblia - o grito do
pobre e sofrido! Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo,
de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados
do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a
garantia de que Deus ouve esse grito. Mas, a reação dos transeuntes é típica -
mandam que Bartimeu se cale! O poder dominante sempre quer abafar o grito do
excluído! Isso não mudou até os dias de hoje! É só verificar o pouco caso que a
nossa sociedade faz diante da opressão e massacre dos povos indígenas, diante
de sofrimento dos excluídos e marginalizados pela sociedade de consumo. Até nas
Igrejas existe quem não queira ouvir o grito, e faz de tudo para abafar
qualquer iniciativa popular. Mas Deus ouve!
Com
um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os
mesmos que o mandaram calar, agora têm que convidá-lo para falar com Jesus.
Porém para isso Bartimeu tem que lançar fora o manto - a única coisa que ele
possuía, a sua única segurança. É a sua roupa, o seu cobertor à noite, o que
ele usa para recolher as esmolas. Ele o joga fora, embora seja cego, e não tem
certeza que vai ser curado. Como os primeiros discípulos no lago (Mc 1, 18.20),
ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a
segurança humana para experimentar a mão de Deus.
É bom notar que Jesus não parte
imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta “o que
quer que eu faça por você?” (v. 51). Pois, Jesus não obriga ninguém a se
libertar - há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, no seu comodismo,
quem não opte pela libertação. Mas, Bartimeu quer ver de novo. Diferente
do cego de Jo 9 - cego de nascença - ele via anteriormente e tinha perdido a
visão. Aqui ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a
clareza da fé, e que precisava o toque de Jesus para que voltasse a ver
claramente.
Curado, Bartimeu recebe licença para ir,
para seguir a sua vida. Mas, ele faz uma outra opção: “no mesmo instante o cego
começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho” (v. 52). Ele usava para
Jesus um titulo não muito adequado “filho de Davi”, pois em Mc 12, 35-37, Jesus
fez muitas restrições a este título messiânico, mas ele tem a prática certa - segue
Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que
tinha o título certo “Tu és o Messias” (Mc 8, 29), mas a prática errada! Não quis que
Jesus caminhasse para a doação total da sua vida, n Cruz! Aqui o modelo de
discípulo não é Pedro, mas, Bartimeu! Pois mais importante do que os títulos e
expressões teológicas, sem negar a sua importância relativa, é a prática do
seguimento de Jesus! Um alerta para todos nós, para que a nossa prática seja
coerente com a nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus e
seus valores!
Tomaz Hughes SVD
e-mail thughes@netpar.com.br
Imagem: blog.cancaonova.com
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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