“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se
o servo de todos.”
No
esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje situa-se quase no fim da
caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho
de toda a missão d’Ele. Pela terceira vez, Ele tem dado aos seus mais íntimos
colaboradores o anúncio sobre a sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo
para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e
aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão
caçoar d’Ele, cuspir n’Ele, vão torturá-lo e matá-lo”. Novamente uma colocação
mais do que clara sobre o que significa ser o Messias (Cristo em grego) de Deus,
mas que não surte efeito - os discípulos, cegados pela ideologia dominante, não
são capazes de entender o sentido da vida de Jesus, e, por conseguinte, o
sentido de ser discípulo d’Ele. Como Pedro depois do primeiro anúncio, e todos
os Doze depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de
Jesus, numa tentativa de impor a sua própria agenda!
Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar a
sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus
entrasse na sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão
gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois
irmãos, que Mateus, relatando a mesma historia, suaviza o texto de Marcos,
fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido! (Mt 10, 20). A queixa de Deus no
Antigo Testamento de que o seu povo era um povo de “cabeça dura” se atualiza
nos Doze!
Não
devemos pensar que eram somente os dois filhos de Zebedeu que sentiram o gosto
pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido
feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com
raiva de Tiago e João” (v. 41). Por que ficaram com raiva? Não porque achavam
sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o
lugar de honra e poder! O vírus de dominação é mais do que contagioso!
Mais
uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com os seus seguidores. Contrasta
o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade
dos seus discípulos: “entre vocês não deve ser assim: quem de vocês quiser ser
grande, deve tornar-se o servo de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro,
deverá tornar-se o servo de todos” (vv. 43-44). E deixa bem claro o motivo -
não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo:
“porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para
dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (v. 45). Ser discípulo de Jesus
é ter o mesmo ideal, a mesma prática que Ele!
O texto torna-se muito atual para os
dias de hoje. Infelizmente, o contraste feito por Jesus entre os seus
seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Existe, nos
últimos anos de forma mais acentuada, uma busca de status e do poder dentro do
seio das igrejas, talvez especialmente entre o clero mais jovem. O Papa
Francisco não cansa de combater essa tendência.
Mas, ninguém pode se achar imune diante desta tentação, pois está bem
enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento
de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que
realmente construamos uma Igreja onde se demonstre que “entre vocês não deve
ser assim”.
Tomaz Hughes SVD
e-mail
thughes@netpar.com.br
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br

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