“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”
Na Igreja Católica, hoje, último domingo do Ano
Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do
Universo. A festa foi estabelecida na
época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos
antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é de
Deus. Nos dias de hoje, em que milhões
padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do
poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa –
que Deus é o único Absoluto. Em um mundo
que não ateu mas idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos
desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas – para
descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas vidas.
O texto é tirado da paixão segundo João – o diálogo
entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típico, João faz com
que Pilatos – o representante do poder absoluto da época, o Império Romano -
apresenta Jesus como Rei, o que ele é na verdade, mas não da maneira que
Pilatos pudesse entender. O Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império
Romano – não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas o Reino da justiça,
fraternidade, solidariedade e partilha, o Reino do Deus da Vida.
É exatamente
por pregar e semear este Reino que Jesus deve morrer – aliás não morrer mas ser
matado, o que é diferente. Pilatos
demonstra isso quando ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo a sua
morte. Não foi o povo, mas os sumos
sacerdotes que o entregaram (v. 35). É
importante entender o que isso significa, pois se Jesus foi matado, houve algum
motivo e houve alguém que o matasse. Os
sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro
do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos de terras e do
comércio, e chefes do Templo. O Templo
funcionava como “Banco Central”, centro de arrecadação de impostos e lugar de
câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder
político, econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista,
representado por Pilatos. Pois o Reino
de Deus se opõe frontalmente a qualquer reino opressor, como era o de Roma.
A realidade vivida por Jesus
continua hoje. O seguimento de Jesus, na
construção dum Reino de justiça e paz, do shalôm de Deus, necessariamente vai
entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e da
injustiça. Normalmente, esses poderes
primeiro vão tentar cooptar a igreja, para que, em lugar de ser voz profética
diante das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. E não
faltarão incentivos, monetários e outros, para que as igrejas caiem nesta
cilada. Por isso, como nos advertiram os
textos nos últimos domingos, é necessário que fiquemos sempre vigilantes para
verificarmos se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou
o reino de Pilatos.
Para João, Jesus provoca a
grande crise da história. Diante da
verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão,
mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem
e o mal, entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia
todos os elementos da sociedade. Diante
dele, não há lugar para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser
algo triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência – tanto
individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é
realmente Jesus, ou se, mesmo duma maneira disfarçada, continua sendo Pilatos!
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br

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