“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”
Este texto nos apresenta diversas dificuldades de
interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências
veladas a possíveis eventos históricos, e referências tiradas de escritos do
tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para nós. Porém a sua mensagem central fica clara – o
triunfo final do Filho do Homem, mandando por Deus para estabelecer o seu
Reino. A linguagem vetero-testamentária
de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus
são unidas em um contexto novo, em que a vinda escatalógica de Jesus como Filho
do Homem se torna o evento central. A
sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como prova da vitória de Deus – e
a expectativa desta chegada serve como base da vigilância paciente que é recomendada
aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatalógico de Marcos.
Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem
referência a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10, Ez 32,7; Am 8,9; Jl
2,10.31; 3,1`5; Is 34,4; Ag 2,6.21; Mas
em nenhum lugar no Antigo Testamento se refere à vinda do Filho do Homem – é
uma novidade do Evangelho. A lista
desses sinais é uma maneira de dizer que toda a citação assinalará a sua vinda
final. A descrição da chegada do Filho
do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7,13, mas aqui se
refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro
apocalíptico de Daniel. A ação de Jesus
em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2,10.
Este reunir-se dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em
Dt 30,4; Is 11,11.16; 27,12. Ez 39,7 etc. – mas nunca no Antigo Testamento é o
Filho do Homem que faz esse trabalho.
A segunda parte do texto consiste em uma parábola (vv.
28-29), um ditado sobre a hora do fim (v 30), sobre a autoridade de Jesus ( v.
31) e de novo sobre a hora (v 32). Nem
sempre fica claro a que se refere – o que se fala sobre essas coisas
acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o v. 32 que diz que somente
Deus sabe a hora exata. A parábola sobre
os sinais claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição a parábola
da vigilância constante (vv. 33-37).
Mas continua clara a mensagem básica – a vitória final do projeto de
Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas a certeza dessa vitória não dispensa a
atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se
desviem do caminho.
Pode parecer confuso o nosso
texto – e para nós hoje, de uma certa forma o é. Mas, inserido no contexto do Discurso
Escatalógico (referente aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem
de esperança e uma advertência. A
esperança nasce do fato de que a vitoria de Deus é garantida – um elemento
fundamental em todo apocaliptismo. A
advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos
a hora do Filho. Em um mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de
muitos, o texto convida nós, os discípulos, a uma atitude positiva que nos leva
a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós. Mas também nos desafia para que estejamos
sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e
consumista, que muitas vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino de
Deus. As palavras de Jesus têm um valor
permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo
nos apresenta. “O céu a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br
Imagem: www.google.com.br

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