“Ajoelharam-se diante dele, e lhe prestaram homenagem”
Hoje no Brasil celebramos uma das grandes festas do Ciclo de
Natal - a Manifestação do Senhor (“Epifania” em grego, cuja data
tradicionalmente era 6 de janeiro), onde comemoramos o fato de que Jesus foi
manifestado não somente ao seu próprio povo, mas a todos, representados pelos
Magos do Oriente. Embora a festa tenha muita popularidade folclórica, ela
celebra uma grande verdade da fé - que a salvação em Jesus é para todos os
povos, sem distinção de raça, cor ou tradição religiosa. Retomando a grande
intuição do profeta Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus.
O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica da
literatura judaica chamada “midrash”, ou seja, uma releitura de
passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus quer ensinar
algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos textos do
Antigo Testamento. Por exemplo:
-
Vêm os magos (nem três, nem reis no texto bíblico!) buscando o Rei dos Judeus.
Esses magos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés (Ex
7, 11.22; 8, 3.14-15; 9, 11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas
maravilhas feitas por Ele. Os magos no relato antigo contestaram Moisés,
mas no relato mateano vem adorar Jesus, pois, para Mateus, Jesus é o Novo
Moisés e maior do que Moisés
-
A estrela é sinal da vinda do Messias, prevista na profecia de Balaão (a
“Estrela de Jacó” de Nm 24, 17)
-
O menino nasce em Belém, segundo a profecia de Miquéias (Mq 5, 1)
-
Os presentes lembram as profecias de Segundo-Isaías e os Salmos sobre os
estrangeiros que viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is 49, 23;
60, 5; Sl 72, 10-11).
-
Herodes é o novo Faraó, que também massacra os filhos do povo de Deus (Êx 1,
8.16).
O texto chama a atenção pelas reações diferentes diante do
acontecido. Os que deveriam reconhecer o Messias - pois são versados nas
Escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo através da
religião e da política, Jesus e a sua mensagem constituem uma ameaça. Outros,
pagãos do oriente, buscando sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro
Deus, e entregam-lhe presentes, sinais da partilha que será característica do
Reino que Jesus veio pregar.
Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus
e do seu Evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico
com shows e cantos, como se vê claramente nas festas natalinas, quando até
bancos, que desfrutam de lucros astronômicos e imorais, esteios que são do
sistema neo-liberal que cria pobreza em toda parte, promovem apresentações
sentimentais de Natal, usando os mesmos pobres que eles ajudam a criar! De
forma alguma esse tipo de celebração questiona a nossa sociedade e os seus
valores. Para outros, o menino na estrebaria é um sinal do novo projeto de
Deus, o mundo fraterno, onde todas as pessoas de boa vontade devem se unir,
seja qual for a sua raça, nação, gênero ou religião, para construir a
fraternidade que Deus quer.
Jesus não precisa de presentes, mas sim do nosso esforço na
vivência do Reino de Deus. Não caiamos em celebração vazia das histórias do
Ciclo Natalino, reduzindo o seu sentido a algo somente sentimental e
folclórico. Na prática temos que optar, ou para uma vivência religiosa vazia
como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora e
salvadora do Menino de Belém, que convoca a todos, representados pelos magos,
para a construção de um mundo de paz, fraternidade e justiça, pois Jesus veio
para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (Jo 10, 10).
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovão.com.br
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