“O que é que vocês estão procurando?”
O autor do Quarto Evangelho organizou o material dos versículos de 1, 19 - 2,
12 em um esquema de sete dias, culminando com o primeiro sinal de Jesus - as
bodas de Caná - que teve como consequência que “os seus discípulos creram
n’Ele” (2, 11). Assim fez lembrar os sete dias da criação, pois com e em Jesus
acontece a nova criação.
Mas Jesus não quis agir sozinho - e desde o início chamou para si um grupo de
seguidores. Embora seja mais conhecido o relato dos Sinóticos, que descreve o
chamado dos primeiros discípulos à beira do mar de Galiléia (Mc 1, 16-20) ,
talvez o relato do Quarto Evangelho guarde uma tradição mais histórica - que os
primeiros discípulos de Jesus eram seguidores de João, o Batista.
O texto de hoje relata a vocação dos primeiros três discípulos - André, um
discípulo anônimo (o Discípulo Amado?) e Simão Pedro. O chamado dos primeiros
discípulos nos apresenta um retrato de vocação, válido para todos os tempos e
todas as pessoas. A primeira pergunta que Jesus fez é fundamental - “o que é
que vocês procuram?” São as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de João.
Uma pergunta muito importante para todos nós hoje - o que é que nós procuramos
na vida? O que é o mais importante para nós? Onde procuramos a nossa felicidade
e realização? Não é uma pergunta meramente teórica - é a base da nossa
vivência. Essa pergunta nos interroga, como interrogou os primeiros discípulos,
sobre a busca que dá sentido à nossa vida.
A resposta dos dois: “Mestre, onde moras?”, mostra que eles queriam criar
comunhão com Jesus, pois a frase não significa descobrir o seu endereço, mas a
sua proposta de vivência - e Ele lhes lança um desafio com o convite - “Venham
e vejam”! Em João, “ver” tem o sentido de “crer” (Jo 6, 40). Não se trata
simplesmente de conhecer a moradia d’Ele, mas algo muito mais profundo -
descobrir quem é Jesus, descobrir que Ele veio do Pai e volta para o Pai. Ambos
escolhem unir as suas vidas e os seus destinos a Jesus, pois “ficaram com Ele”.
Não é possível ser discípulo de Jesus sem que demos tempo para ficarmos com Ele
- na oração, na reflexão, na leitura da sua palavra.
Mas para que sejamos discípulos/as não basta conhecer Jesus de uma maneira
intimista e individualista. Logo André procura partilhar a sua descoberta,
fazendo com que o seu próprio irmão chegue a conhecer Jesus. Hoje também é
fundamental que os cristãos testemunhem Jesus, para que outros possam crer
n’Ele - e esse testemunho é dado muito mais pela nossa maneira de viver e agir
do que com as nossas palavras.
O terceiro discípulo do texto é Simão, que ganha o novo nome de “Pedro” - mudar
o nome de uma pessoa na Bíblia muitas vezes significa uma nova identidade, uma
nova vocação (Abrão, Jacó, Sarai etc). Pedro vai dar muitas cabeçadas antes de
descobrir a sua verdadeira identidade. Aliás, só a encontra no fim do Evangelho
em Capítulo 21 quando confessa o seu amor incondicional para Jesus e pela
comunidade, e ouve o convite definitivo do Mestre “Siga-me”. Pedro simboliza a
experiência de todo discípulo - o seguimento de Jesus é uma caminhada de uma
vida toda, com muitos erros e desvios. Mas, o amor incondicional de Deus é
capaz de vencer todas as fraquezas e pecados.
Ser discípulo é um aprendizado permanente - e para que
façamos essa caminhada, é necessário que sigamos os passos dos primeiros
discípulos - que saibamos com clareza o que procuramos na vida, que busquemos
criar comunhão com Jesus e com a sua comunidade, e que gastemos tempo com Ele.
Assim teremos a alegria imensa de fazer a grande descoberta da vida, e, como os
discípulos, chegarmos a realmente “crer n’Ele” - não de uma maneira teórica e
difusa, mas através de uma experiência real do Deus da vida, encarnado em Jesus
de Naza
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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