"Sigam
-me e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens”
Este
texto trata da vocação dos primeiros discípulos conforme a tradição sinótica,
em contraste com o do último Domingo, que nos trouxe a tradição da comunidade
do Discípulo Amado.
Marcos
logo destaca e situa concretamente o momento de Jesus lançar-se na sua vida
pública - “depois que João Batista foi preso”. Não é uma indicação meramente
cronológica, mas causativa, no sentido que Jesus começou a pregar porque João
foi preso. Assim, Ele se coloca na tradição profética de João Batista, uma
vocação que levaria Jesus, como levou João, ao martírio.
O
texto encapsula em versículo 15 todo o conteúdo do Evangelho na frase lapidar
“o tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e
acreditem na Boa-Notícia”. O Reino de Deus irrompeu no meio da humanidade de
uma maneira definitiva, através da pessoa e ação de Jesus de Nazaré. Esse Reino
exige resposta da parte das pessoas - a conversão que nasce da fé na
Boa-Notícia da salvação, da justiça e da paz que Jesus trouxe.
Mas
Deus quis precisar das pessoas para concretizar o seu plano; por isso o primeiro
passo de Jesus foi formar uma comunidade de discípulos. É importante notar a
atividade dos primeiros chamados - dois estavam “lançando a rede ao mar” e dois
estavam “consertando as redes”. Significa os dois aspectos da vida cristã - a
missão (lançar as redes) e a comunhão (consertar as redes). Como as redes se
rasgam de tanto serem lançadas, assim acontece com a nossa vida, com as nossas
comunidades - por sermos frágeis, facilmente se rompem a nossa comunhão e
unidade. Por isso, temos também de dar tempo para “consertar” - fortalecer a
nossa união, a nossa vida interior, a nossa vivência comunitária. Rede rompida
pega nada - e rede consertada, por tão bonita que possa ser, se não for lançada
também pega nada. É assim com a vida cristã - se rompermos a nossa unidade e
comunhão, não traremos pessoas para o Reino. Mas, se cairmos em uma religião
intimista e individualista, não nos lançando na missão, tampouco seremos
“pescadores de homens”. O unilateralismo deve ser evitado.
Também
é de notar que tanto os dois que estavam lançando as redes como os que estavam
consertando-as tiveram que deixar algo para seguir Jesus - ou as redes,
(símbolo da segurança profissional) ou o pai e os empregados (símbolo da
segurança afetiva). Não é possível seguir Jesus sem deixar algo. Uma religião
de seguranças humanas, que não exige compromissos concretos e opções às vezes
difíceis, não é a religião de Jesus. O Evangelho é como “espada de dois gumes”
(Hb 4, 12), incomoda e desinstala-nos hoje, da mesma maneira do que os primeiros
discípulos. Perguntemo-nos: “o que é que o seguimento de Jesus exige que eu
deixe, neste momento concreto da minha caminhada de discípulo ou
discípula-missionário de Jesus e do Reino?
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristovao.com.br

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