“Este é o meu Filho amado, que muito me agrada”
Hoje, no Domingo seguinte à Epifania, celebra-se a Festa do
Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no Rio Jordão é tão
importante teologicamente que é tratado por cada um dos Sinóticos, cada qual da
sua maneira, dependendo da situação da sua comunidade e dos seus interesses
teológicos. A história logo se tornou um problema para os primeiros cristãos,
pois levantava a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado em
um ritual de purificação dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência
de Mc 1, 4 ao perdão dos pecados, e adiciona os vv. 14 e 15. Para João, o
batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua cristologia, que omite
qualquer referência ao atual evento, e no seu lugar, faz com que João Batista
indica Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29-34).
O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de
Jesus. Lucas se destaca pela insistência em situar Jesus como
membro do seu povo - identificando-se com aquela camada do povo marginalizada e
menosprezada como “impuro” pela teologia oficial, atrelada ao poder político
das elites. Como disse o saudoso Padre Alfredinho, fundador da Fraternidade do
Servo Sofredor: “No dia do seu batismo, Jesus entrou na fileira dos excluídos
para nunca mais sair dela!” Com o seu batismo, Jesus assume a fidelidade
radical à vontade de Deus. O significado disso será mostrado ao longo do
Evangelho. Também Jesus, unindo-se aos pecadores, já está, desde o começo,
rejeitando a visão de um Messianismo triunfalista.
Os sinóticos ressaltam o fato que “o céu se abriu”. Marcos
é o mais contundente quando enfatiza que “os céus se rasgaram”. É uma maneira
simbólica de expressar que em Jesus acontece a união definitiva entre o céu e a
terra (At 7, 56; 10, 11-16; Jo 1, 51) e uma revelação celeste (Is 63, 19; Ez 1,
1; Ap 4, 1; 19, 11). A revelação maior é a confirmação da identidade de Jesus
como o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente de polêmica contra o
judaísmo formativo do fim do primeiro século, muda a tradição original (Mc 1,
9-11), mantida por Lucas, onde as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para
dirigi-las aos ouvintes: “Este é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve
escolher” (v. 17). Em ambas as tradições, essas palavras associam a
terminologia de Sl 2, 7, que repete a profecia de Natã em 2 Sm 7, 14 (tu és meu
filho...) a Is 42, 1 (meu bem amado que me aprouve escolher). A passagem de
Isaías apresenta o Servo que não levanta a voz (42, 2), nem vacila, nem é
quebrantado (42, 4). (A tradução grega da Septuaginta usou uma palavra que
podia expressar tanto os termos hebraicos para “filho” e para “servo”). Fazendo
fusão desses textos do Antigo Testamento, o texto une em Jesus duas figuras
proféticas - a do Filho da descendência real davídica e do Servo de Javé.
Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica a vocação do Servo Sofredor, e
rejeita pretensões messiânicas triunfalistas. Podemos dizer que o Batismo é
para Jesus o assumir público da sua missão como Servo de Javé. A voz do céu
confirma a sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o
início do seu ministério público, como seu Filho (Sl 2, 7), seu bem-amado,
objeto da sua predileção.
Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é
o nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a
veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus - cada um de nós
também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3, 1), a quem aprouve
escolher-nos. Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e
gratuito - nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Importante é
reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós
responder a este amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas do Pai, no
seguimento de Jesus (1Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do
Pai, mas assumiu as consequências - uma vida de fidelidade, que o levava até a
Cruz - e a Ressurreição (Fl 2, 6-11). É importante também lembrar que, como o
Pai me ama incondicionalmente, ele assim ama a todos/as, independente da sua
condição social, religiosa, ou moral. Esse fato desafio a nossa maneira
de olhar outras pessoas, e as nossas atitudes diante as que não correspondem
com as nossas expectativas nem os nossos princípios.
Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do
nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de
contribuir à criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a
justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros de
Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino d’Ele, que “já está
no meio de nós” (Mc 1, 14).
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristóvao.com.br
Tomaz Hughes SVD
e-mail: thughes@netpar.com.br
Fonte: www.matrizsaocristóvao.com.br

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