
TERCEIRO DOMINGO COMUM (24.01.16)
“O Espírito do Senhor está sobre mim”
Lc 1, 1-4; 4,14-21
O texto relata a primeira experiência da Vida Pública de
Jesus. Deu-se na sua terra de criação - Nazaré. Na linguagem de hoje, Jesus foi
para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da equipe litúrgica,
para fazer a segunda leitura! Naquela época, o culto da sinagoga tinha duas
leituras - a primeira tirada da Lei, a segunda dos Profetas. Jesus, abrindo o
livro do Profeta Isaías, encontrou a passagem que diz: “O Espírito do Senhor
está sobre mim, porque Ele me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres;
enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da
vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano da graça do Senhor”
(4, 18-19). Não que Ele encontrasse esta passagem por acaso! Pelo contrário -
Jesus procurou até achar, pois Ele identificava a sua missão com aquela
descrita pelo profeta. Por isso, na hora da homilia, começou com a frase
chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de
ouvir” (4, 21). Jesus identificou a sua missão com a do Capítulo 61 de Isaías.
Nós, como discípulos d’Ele, temos a mesma missão. Olhemos os elementos:
a) “Anunciar a Boa Notícia aos pobres”: O evangelho é
“Boa-Notícia” - não uma série de leis, nem uma lista de práticas rituais, nem
uma moral (embora tenha todos estes elementos), mas uma experiência de Deus que
traz alegria, felicidade, - especialmente para os pobres! Portanto, Ele toma
posição - o que é boa notícia para uns, é má-notícia para outros! O que é boa
notícia para o oprimido, é má notícia para o opressor, a não ser que mude de
vida! Não existe uma Boa-Notícia neutra, igualmente boa para todos! E não
devemos diluí-lo a termo “pobre” - aqui não é o pobre de espírito, nem de
coração, nem de fé... é o pobre mesmo, aquele/a que não tem o necessário para
uma vida digna (Lucas usa o termo grego “ptochois”, que significa mais ou menos
“indigentes”). Com certeza, na nossa sociedade inclui todos os excluídos.
b) “Proclamar a libertação aos presos”: Não só aos na
cadeia, mas que estão sem a liberdade dos filhos de Deus - presos hoje pelas
consequências do neo-liberalismo, do desemprego, do salário mínimo; pelas
correntes de racismo, machismo, clericalismo, e tudo que oprime! Também aos
presos no seu próprio egoísmo, pois o assumir dos valores evangélicos vai
libertá-los. Porém, esta libertação passa pela mudança radical na sua maneira
de viver.
c) “Aos cegos a recuperação da vista”: Quanta gente cega
hoje! E não por doença dos olhos, mas cegada pela ideologia dominante que não
deixa ver a realidade do mundo e dos sofridos; pelas falsas utopias alienantes
e pela manipulação de informação pelos meios de comunicação, dominados pela
elite, que “fazem a cabeça”; quantos cegos diante da possibilidade de mudança
através da força histórica dos oprimidos! Vale a pena notar que o texto
enfatiza a “recuperação” da vista - não a doação dela. Ou seja, trata-se de
ajudar os/as que uma vez viram a realidade com os olhos de Deus, mas foram
cegados pela ideologia dominante ao ponto de não enxergarem mais a verdade.
d) “Libertar os oprimidos”: Aqui há o eixo fundamental de
toda a Bíblia - o Êxodo, como processo permanente. No livro de Êxodo, Deus se
identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Êx 3, 76-10). Jesus se coloca
- e coloca todos os seus seguidores - neste mesmo compromisso. Hoje a época é
diferente, mas a opressão continua, e Deus nos conclama para que todos nós nos
empenhemos nesta luta para concretizar a libertação dos oprimidos.
e) “Proclamar o ano de graça do Senhor”: O Ano da Graça - o
Ano Jubilar! Memória da proposta do Lv 25, o ano do perdão das dívidas, da
libertação dos escravos, da devolução das terras aos seus donos originais!
Como concretizar, na realidade do Brasil de hoje, esta
visão? O que significa hoje o perdão das dívidas, a libertação dos escravos e a
devolução das terras? Questões evangélicas da fé, que têm fortes consequências
políticas e econômicas e desafiam a tendência à uma religião intimista,
individualista e desencarnada da realidade. Pois júbilo, alegria, não pode ser
decretado - tem que brotar de algum motivo profundo.
Aqui o
próprio Jesus fala da sua missão, que é também a nossa. Pois, fomos todos
“consagrados com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres, para
proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para
libertar os oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor” (4,
18-21).
Tomaz Hughes SVDe-mail:
Fonte:www.matrizsaocristovao.com.br
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