
“Façam tudo o que ele lhes disser”
A primeira parte
do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o
evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem
é Jesus, e qual é a Sua missão. Embora algumas bíblias traduzem o termo grego
que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “Sinal”. O primeiro
desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o texto de hoje. Como
todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas,
números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência
das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas
centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à
cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus por sua morte e ressurreição.
Em resposta ao pedido feito por sua mãe - João nunca se refere a ela pelo nome,
mas pelo título “mulher”. Usando de uma maneira até estranha este termo para a
sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de
ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da
mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste
Evangelho - ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento
de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade
dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje.
Apesar da nossa
tradição piedosa mariana é importante não reduzir a ação da Maria no texto à de
uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção
popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui
como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um
distanciamento entre a Sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com
confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele.
O simbolismo da
água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água - era a água da
purificação dos judeus. Com essa história, João quer mostrar que doravante os
ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação
vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática
religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para
uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná,
Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, algo que vai
continuar ao longo do Evangelho de João.
A quantia do vinho
chama a atenção - 600
litros ! O vinho em abundância era símbolo dos tempos
messiânicos, e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por
uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa
messiânica se realiza em
Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante
que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como os
serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia,
enquanto estes, sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que
não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que
acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação
entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era
boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação
e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento
entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
O ponto culminante
do relato está em v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os
seus discípulos acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica,
mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de
amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que
nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E
para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo 20, 31).
Tomaz Hughes SVD
e-mail:
thughes@netpar.com.br
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